DOM LUIZ HENRIQUE, CARDEAL PAROLIM
POR MERCÊ DE DEUS E DA SÉ APOSTÓLICA
PATRIARCA DE LISBOACARTA PASTORAL
NON DOMINARI, SED SERVIRE
Sobre a responsabilidade, a presença e a dedicação no ministério pastoral
Aos Reverendíssimos Padres, Presbíteros e demais ministros ordenados do Patriarcado de Lisboa, graça, paz e a bênção de Cristo, Bom Pastor.
Amados irmãos,
Com o coração de pastor e movido pelo dever de cuidar da vida espiritual e pastoral da Igreja que me foi confiada, dirijo-me a todos vós por meio desta Carta Pastoral. Faço-o não movido pelo desejo de censurar, mas pela responsabilidade que acompanha o ministério que o Senhor colocou sobre meus ombros.
Somos uma única Igreja, um único presbitério e um único povo reunido em torno de Cristo. Cada sacerdote, ao receber o Sacramento da Ordem, não recebe apenas uma dignidade, mas uma missão. Não somos chamados para ocupar lugares, exercer funções ou simplesmente ostentar títulos. Somos chamados para servir.
O próprio Cristo nos ensinou que aquele que deseja ser grande entre os seus deve tornar-se servidor. O ministério sacerdotal encontra sua verdadeira grandeza justamente na entrega. Quanto mais profundamente um sacerdote compreende que sua vida pertence a Cristo e à Igreja, mais disposto estará a oferecer seu tempo, suas forças e seus dons em favor do povo de Deus.
É por isso que não podemos ignorar determinadas situações que vêm enfraquecendo a vida pastoral de nossas comunidades. A ausência frequente, a falta de participação nas atividades da Igreja, o desinteresse pelos encargos recebidos e a pouca disponibilidade para o serviço pastoral são realidades que precisam ser examinadas com seriedade.
Nenhum de nós deve enxergar o ministério como uma obrigação burocrática ou como uma posição que pode ser exercida apenas quando conveniente. Uma missão recebida da Igreja exige responsabilidade. Um ofício pastoral não é apenas um nome escrito em um documento; é um compromisso assumido diante de Deus e da comunidade.
No Evangelho segundo São João, após a Ressurreição, Jesus dirige a Pedro uma pergunta fundamental: “Tu me amas?”. Depois de ouvir sua resposta, o Senhor lhe confia uma missão: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,17).
Nessas palavras encontramos uma das imagens mais profundas do ministério pastoral. O sacerdote é chamado a apascentar. E apascentar significa estar próximo, acompanhar, orientar, consolar, ensinar, celebrar e servir. Significa caminhar junto daqueles que lhe foram confiados.
O sacerdote não pode ser um pastor distante de suas ovelhas.
A vida pastoral exige presença. Exige disponibilidade. Exige disposição para servir mesmo quando o serviço se torna cansativo ou quando não há reconhecimento humano. O povo de Deus precisa encontrar em seus pastores homens verdadeiramente comprometidos com Cristo e com a missão que receberam.
Não podemos exigir das comunidades aquilo que nós mesmos não estamos dispostos a oferecer. Se desejamos fiéis participativos, precisamos ser pastores presentes. Se desejamos comunidades fervorosas, precisamos conservar aceso em nós o fogo da vocação. Se desejamos que os fiéis valorizem a Igreja, devemos nós mesmos demonstrar, por nossas atitudes, o quanto amamos a Igreja.
O Código de Direito Canônico recorda que os clérigos possuem uma obrigação particular de reverência e obediência ao Romano Pontífice e ao próprio Ordinário (cf. Cân. 273). Recorda igualmente que devem aceitar e desempenhar fielmente os encargos que lhes são confiados pelo legítimo Ordinário, salvo impedimento legítimo (cf. Cân. 274 §2).
Essas disposições não representam simplesmente uma exigência administrativa. Elas manifestam a própria natureza do ministério ordenado. A obediência e a disponibilidade fazem parte da resposta que o sacerdote oferece à Igreja quando aceita uma missão pastoral.
Quando um sacerdote recebe uma paróquia, uma capela, uma função ou qualquer outro encargo pastoral, recebe também uma responsabilidade concreta diante de Deus e da comunidade. Não basta aceitar a missão formalmente; é necessário realizá-la com zelo, constância e espírito de serviço.
O próprio direito da Igreja recorda que os clérigos são chamados à santidade e devem empenhar-se em cumprir fielmente os deveres próprios do ministério que receberam (cf. Cân. 276). Portanto, a atividade pastoral não pode ser separada da vida espiritual. Servir bem à Igreja exige também cultivar uma profunda vida de oração, união com Cristo e amor pelo povo de Deus.
De modo particular, aqueles que receberam o cuidado pastoral de uma paróquia devem compreender a grandeza da responsabilidade que lhes foi confiada. O pároco é chamado a exercer diligentemente a missão pastoral desde a tomada de posse (cf. Cân. 527), procurando assegurar que a Palavra de Deus seja anunciada, que os fiéis sejam devidamente instruídos na fé, que a vida sacramental seja fortalecida e que a Santíssima Eucaristia permaneça no centro da comunidade (cf. Cân. 528).
Também é dever do pastor aproximar-se de seu povo, conhecê-lo, acompanhá-lo e preocupar-se verdadeiramente com sua vida espiritual (cf. Cân. 529).
Por isso, irmãos, esta Carta não deve ser recebida como uma sentença, mas como um convite à renovação.
Se algum de nós percebe que se afastou da missão que recebeu, ainda é tempo de retornar. Se o cansaço tomou conta do coração, é tempo de buscar novamente a fonte. Se a rotina fez diminuir o entusiasmo, é tempo de recordar o dia em que Cristo nos chamou.
Nenhuma vocação está livre de dificuldades. Nenhum sacerdote está livre de fraquezas. Somos homens e também precisamos constantemente da misericórdia de Deus. Contudo, nossas limitações não podem transformar-se em justificativa para o abandono da missão.
São Paulo exorta Timóteo: “Reaviva o dom de Deus que há em ti” (2Tm 1,6).
Também nós somos chamados a reavivar o dom recebido. É preciso recuperar a alegria de celebrar. Recuperar o desejo de anunciar. Recuperar a disposição para servir. Recuperar o amor pela Igreja e pelo povo que nos foi confiado.
Que cada sacerdote possa perguntar a si mesmo diante de Cristo: Estou realmente servindo? Estou presente? Estou cumprindo com fidelidade aquilo que me foi confiado? Meu ministério manifesta o amor que professo por Cristo?
Essas perguntas não devem gerar medo, mas conversão.
Ao mesmo tempo, desejo deixar claro que esta Carta não pretende lançar sobre todo o nosso clero um julgamento generalizado. Muito pelo contrário. Reconheço com profunda gratidão o trabalho de tantos sacerdotes que permanecem firmes, que servem com generosidade, que se dedicam às suas comunidades e que oferecem seu tempo mesmo diante das dificuldades.
A esses irmãos, minha sincera gratidão.
Muitas vezes, o trabalho de um sacerdote permanece escondido aos olhos dos homens. Porém, nenhuma entrega feita por amor a Cristo passa despercebida diante de Deus. Cada celebração, cada atendimento, cada palavra de consolo, cada oração e cada gesto de serviço realizado com amor possui um valor que ultrapassa aquilo que podemos medir.
Que o nosso Patriarcado seja reconhecido não apenas por suas estruturas, mas pela santidade de seus pastores; não apenas por suas atividades, mas pela qualidade de seu serviço; não apenas por seus títulos, mas pela humildade daqueles que receberam a missão de conduzir o povo de Deus.
Recordemos sempre que não fomos chamados para dominar, mas para servir.
Que Cristo Bom Pastor seja o modelo de cada sacerdote. Que Maria Santíssima, Mãe dos Sacerdotes, acompanhe e proteja cada presbítero de nosso Patriarcado. Que São Vicente, nosso glorioso padroeiro, interceda por nossas comunidades e por todo o nosso clero. E que São João Maria Vianney, exemplo luminoso de sacerdote e pároco, nos ensine a dedicar nossa vida ao serviço das almas.
Peçamos ao Espírito Santo que renove em nós a graça da vocação, fortaleça os que estão cansados, desperte os que se encontram acomodados e conduza todos nós a uma renovada fidelidade ao chamado que recebemos.
Confiando cada sacerdote do Patriarcado de Lisboa ao Coração de Cristo, Bom Pastor, e pedindo a intercessão da Santíssima Virgem Maria, concedo a todos a minha bênção patriarcal.
DADO E PASSADO na Cúria Patriarcal de Lisboa, sob o sinal e o selo de nossas armas, aos 14 dias do mês de agosto do Ano Jubilar de 2026, sob a coroa pontifícia do Papa Pio III.
† DOM LUIZ HENRIQUE, CARDEAL PAROLIM
Patriarca de Lisboa
